
Economias locais resultam de relações sinérgicas entre atividades urbanas e rurais]
[Em países ricos a maioria vive em local relativamente ou essencialmente rural]
A tragédia de 11 de setembro não comprometerá a posição de Nova York como
capital econômica dos EUA. A prova é que nenhuma das grandes cidades do Japão
arrasadas pelos bombardeios americanos do final da 2a. Guerra Mundial deixou de
recuperar seu lugar anterior na hierarquia urbana do país. Um fenômeno
extremamente robusto, que foi explicado com o habitual didatismo por Paul
Krugman, em artigo publicado anteontem neste espaço. As economias das grandes
cidades são sustentadas por um processo de auto-reabastecimento que parece “uma
espécie de círculo virtuoso”: as pessoas e as empresas nelas se fixam por causa das
oportunidades criadas pela presença de outras pessoas e empresas (“Nova York
ferida”, Estado 4/10).
Bem mais difícil é entender o outro lado da moeda. Se esse círculo virtuoso dá tanta
força à economia da grande cidade, como explicar que as economias mais
desenvolvidas do planeta não sejam inteiramente organizadas por esse tipo de
aglomeração urbana ? Por que certas regiões que não possuem grandes cidades
chegam a se mostrar até mais dinâmicas ? Por que razão um número tão
significativo de pessoas e empresas dos países do Primeiro Mundo estão em regiões
classificadas pela OCDE como relativamente ou essencialmente rurais, como
mostra a tabela ? Por que não foram tragadas pelo fortíssimo processo de autoreabastecimento
das grandes cidades?
Qualquer tentativa de responder a estas perguntas rapidamente sugerirá que o
argumento de Krugman é simples sofisma. Pois a permanência de muitas pessoas e
empresas fora das grandes cidades também se deve a oportunidades criadas pela
presença de outras pessoas e empresas. A diferença está na natureza dessas
oportunidades e em suas respectivas vantagens comparativas. A cidade, seja qual
for a sua dimensão, oferece equipamentos e serviços que facilitam muito, tanto a
vida cotidiana das pessoas, quanto o funcionamento das empresas. Do transporte às
telecomunicações, passando por serviços públicos essenciais como saneamento,
energia, educação, ou coleta de lixo, é óbvia a superioridade da infra-estrutura
urbana sobre a rural. Além disso, as amenidades urbanas, que se manifestam
principalmente na oferta concentrada de bens culturais e esportivos, também atraem
mais gente que as amenidades rurais, mais ligadas à oferta de bens naturais, como
silêncio, ar puro, belas paisagens, ou contato com animais.
Sondagens de opinião vêm revelando de forma sistemática que quase todo novaiorquino
adoraria viver em algum lugar da Califórnia ou da Flórida, e que quase
todo parisiense gostaria de mudar para Toulouse ou Grenoble. Muito mais do que
climáticas, essas são preferências por um estilo de vida que permite que se
usufruam simultaneamente as vantagens decorrentes da infra-estrutura urbana e as
inúmeras combinações possíveis entre amenidades urbanas e rurais. E não pode ser
mera coincidência o fato de ocorrerem justamente em cidades de pequeno ou médio
porte de regiões relativamente rurais esses focos de eficiência coletiva e de
inovação que os economistas têm chamado de “clusters industriais”, “distritos
industriais”, “sistemas produtivos locais”, ou simplesmente “arranjos produtivos”.
Também é difícil que seja mera coincidência o fato dos agricultores serem mais
prósperos nas redondezas desse tipo de núcleo urbano que lhes oferece
oportunidades de tocar simultaneamente outros negócios, além de outros empregos
para seus familiares. É verdade que nos espaços rurais dificilmente ocorrem os
processos flexíveis de inovação e de improvisação que dependem da concentração,
da contigüidade e da diversidade que caracterizam as economias urbanas. Mas toda
região rural tem um ou mais centros urbanos que exercem as funções de pólos
gravitacionais. Daí a importância de entender que as economias locais resultam de
relações sinérgicas entre atividades urbanas e rurais.
Não foi esse tipo de abordagem territorial que dominou a ciência econômica no
século passado. Infelizmente, mesmo a pesquisa em economia regional, que não
deveria discriminar categorias espaciais ou setores econômicos, foi vítima de uma
completa distorção urbano-industrial. Mas um estimulante sinal de que se aproxima
a ruptura com esse modelo pode ser encontrado na revisão proposta por Jane
Jacobs, a autora do clássico Morte e vida das grandes cidades. Em seu mais recente
livro - A natureza das economias (São Paulo: Beca, 2001) – ela faz uma fascinante
comparação entre as histórias de Detroit e de São Francisco com o objetivo de
explicar aos jovens economistas que a virtude está na diversificação das economias
locais. Não na especialização induzida pelas economias de escala.
[Em países ricos a maioria vive em local relativamente ou essencialmente rural]
A tragédia de 11 de setembro não comprometerá a posição de Nova York como
capital econômica dos EUA. A prova é que nenhuma das grandes cidades do Japão
arrasadas pelos bombardeios americanos do final da 2a. Guerra Mundial deixou de
recuperar seu lugar anterior na hierarquia urbana do país. Um fenômeno
extremamente robusto, que foi explicado com o habitual didatismo por Paul
Krugman, em artigo publicado anteontem neste espaço. As economias das grandes
cidades são sustentadas por um processo de auto-reabastecimento que parece “uma
espécie de círculo virtuoso”: as pessoas e as empresas nelas se fixam por causa das
oportunidades criadas pela presença de outras pessoas e empresas (“Nova York
ferida”, Estado 4/10).
Bem mais difícil é entender o outro lado da moeda. Se esse círculo virtuoso dá tanta
força à economia da grande cidade, como explicar que as economias mais
desenvolvidas do planeta não sejam inteiramente organizadas por esse tipo de
aglomeração urbana ? Por que certas regiões que não possuem grandes cidades
chegam a se mostrar até mais dinâmicas ? Por que razão um número tão
significativo de pessoas e empresas dos países do Primeiro Mundo estão em regiões
classificadas pela OCDE como relativamente ou essencialmente rurais, como
mostra a tabela ? Por que não foram tragadas pelo fortíssimo processo de autoreabastecimento
das grandes cidades?
Qualquer tentativa de responder a estas perguntas rapidamente sugerirá que o
argumento de Krugman é simples sofisma. Pois a permanência de muitas pessoas e
empresas fora das grandes cidades também se deve a oportunidades criadas pela
presença de outras pessoas e empresas. A diferença está na natureza dessas
oportunidades e em suas respectivas vantagens comparativas. A cidade, seja qual
for a sua dimensão, oferece equipamentos e serviços que facilitam muito, tanto a
vida cotidiana das pessoas, quanto o funcionamento das empresas. Do transporte às
telecomunicações, passando por serviços públicos essenciais como saneamento,
energia, educação, ou coleta de lixo, é óbvia a superioridade da infra-estrutura
urbana sobre a rural. Além disso, as amenidades urbanas, que se manifestam
principalmente na oferta concentrada de bens culturais e esportivos, também atraem
mais gente que as amenidades rurais, mais ligadas à oferta de bens naturais, como
silêncio, ar puro, belas paisagens, ou contato com animais.
Sondagens de opinião vêm revelando de forma sistemática que quase todo novaiorquino
adoraria viver em algum lugar da Califórnia ou da Flórida, e que quase
todo parisiense gostaria de mudar para Toulouse ou Grenoble. Muito mais do que
climáticas, essas são preferências por um estilo de vida que permite que se
usufruam simultaneamente as vantagens decorrentes da infra-estrutura urbana e as
inúmeras combinações possíveis entre amenidades urbanas e rurais. E não pode ser
mera coincidência o fato de ocorrerem justamente em cidades de pequeno ou médio
porte de regiões relativamente rurais esses focos de eficiência coletiva e de
inovação que os economistas têm chamado de “clusters industriais”, “distritos
industriais”, “sistemas produtivos locais”, ou simplesmente “arranjos produtivos”.
Também é difícil que seja mera coincidência o fato dos agricultores serem mais
prósperos nas redondezas desse tipo de núcleo urbano que lhes oferece
oportunidades de tocar simultaneamente outros negócios, além de outros empregos
para seus familiares. É verdade que nos espaços rurais dificilmente ocorrem os
processos flexíveis de inovação e de improvisação que dependem da concentração,
da contigüidade e da diversidade que caracterizam as economias urbanas. Mas toda
região rural tem um ou mais centros urbanos que exercem as funções de pólos
gravitacionais. Daí a importância de entender que as economias locais resultam de
relações sinérgicas entre atividades urbanas e rurais.
Não foi esse tipo de abordagem territorial que dominou a ciência econômica no
século passado. Infelizmente, mesmo a pesquisa em economia regional, que não
deveria discriminar categorias espaciais ou setores econômicos, foi vítima de uma
completa distorção urbano-industrial. Mas um estimulante sinal de que se aproxima
a ruptura com esse modelo pode ser encontrado na revisão proposta por Jane
Jacobs, a autora do clássico Morte e vida das grandes cidades. Em seu mais recente
livro - A natureza das economias (São Paulo: Beca, 2001) – ela faz uma fascinante
comparação entre as histórias de Detroit e de São Francisco com o objetivo de
explicar aos jovens economistas que a virtude está na diversificação das economias
locais. Não na especialização induzida pelas economias de escala.
Fonte: José Eli da Veiga é professor titular da FEA-USP e secretário do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável (CNDRS).
www.fea.usp.br/professores/zeeli/

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